Falo mais não
Escuto agora...
Das mudanças do corpo cabem as circunstâncias da vida. Cresço e, ao que amadureço, me escancaro. Aqui há minha porta aberta, onde parte o prolongamento de meus braços e pernas além do meu ego de ator e força circense. Partem minhas palavras em corpo, em carta, em viva poesia, mesmo se em prosa vier a narrativa. Sei que espiam e não deixam pistas, mas, se puderem, comentem... e deixem um pouco da sua carne poética em minha cerne criativa. Experimentem...
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sábado, setembro 16, 2006
sexta-feira, setembro 01, 2006
Chove mesmo chove. Lava essa cidade em fluidas águas, molhadas de suor do trabalho. Paulistano arde, paulistanos da Bahia, de Sergipe, Paraíba, todos cabem nesse Brasil metrópole, brasil de economia. É só olhar o quê desce o morro. Barro, lixo, na enxurrada vem gente rústica, vem nessa acústica onda de certezas, de certas pobrezas com cara limpa, lindo aspecto e glórias incabidas. O recheio é oco e oco também é a barriga e a cabeça e a cabeça e a barriga, vento e saudade. Saúde? Nem tento, nem arrisco, se é saúde atestado médico e viver assim a sono e hora todo Dia de Maria. Brincadeira de escola é o qu'eu queria. A agonia é sem volta. Casa e romaria na favela, o cruza-cruza é todo beirando a rodovia. Métodos de vida. Ninguém escuta não, vive-se apenas. Nem se aprende, nem se ensina. Só recebe nas solas o fio da roca que nervosamente se fia. O ônibus vai gastando óleo diesel e estou certo de que essa é a minha anatomia, esse é o meu corpo, é o corpo que arrependia. Mas na volta não tem volta, a estrada é sempre outra a cada vez que se olha para trás. Os caminhos são tantos que das escolhas não fazemos conta, escolhemos e seguimos sempre, sem nem se ver nelas desenhado, nem em previsão de cores e formas. Quando me olho já me vejo vestido com roupa feita medida, cabível no corpo, grudada que não sai nem a ferro e fogo, tesoura e navalha. Feito roupa molhada de chuva lavada em cola sem saída. Ando e me grudo, me prendo sem nem ver, em esquinas, casas, praças, igrejas, prédios, ruas, viadutos, avenidas, lojas, árvores, postes, cães, gatos, trens, calçadas, rios, poluídas fachadas, pontos de ônibus, guardirreios, nem freia, nem pára, carrega a cidade inteira intalada na garganta, amarrada nas costas. Não importa pro lado que vire, pro rumo que siga ela vive ali sobre, fazendo careta por detras, zombando postera, querendo ir na contramão. Não me deixo assim por defeito com corcunda de chaminés e carros, soltando gases e sirenes a torto e a direita. Sigo indo carregando e indo enquanto sirvo de matéria prima pra metrópole, sou combustível rico em carbono, duradouro até a aposentadoria em cinzas fáceis de voar por esses ares carregados de maio-branco-meio-preto, sou carvão pra esse brasil de economia, vermelho de fé, de tanto andar a pé e de raiva.
sexta-feira, agosto 18, 2006
Atrás
Dizem que atrás da porta dos sonhos existe aquele serzinho de quem a gente sempre leva um susto. Quando tudo acorda no clarão do meio-dia e já passou almoço, hora e sobra a apatia. Dá aquela preguiça de tarde vazia, com vento vazio, luz do sol vazia, sorrisos vazios, horas vazias, horas e mais horas, sobras de sustos, meias-delongas e delongas inteiras vazias, televisão sem energia e livro sem palavreado algum na escrita. Fica tudo assim à cegueira de não querer enxergar nem preto nem branco, só de ver tudo transparente, através dos outros e da ida: e da volta vida. Nesses dias de sonho, sonhados em plena luz do dia, com cachorros e crianças na rua, pipa e correria no céu, aos poucos um sustinho sempre revela aquilo que sem sempre a gente quer ter - porque fica assim sem chão - o céu é de lilás, alilás, a rua só tem curva e o prédio te dá uma piscadela: e não é reto, é em rodela. Um homem de cuecas que passa voando e outro de gravata macaqueando pelos viadutos de cipó raiz e galhos. Passam os carros sem freio e sem matéria, não batem nunca, seguem toda vida lânguidos em ares e em mares de esgoto limpo e terra fria no lugar do asfalto quente. O sol toca macio com pontinhos de fervura pra cosquinha na gente dar. A chuva despeja mel e a abelha te convida para um chá. Dinheiro vem a granel, mas pra quê dinheiro se a troca se dá no buraco mais em baixo, onde eu canto uma canção e recebo um belo sapato? As roupas são de tecido fino e fresco, só para manter a higiene, e os pés... é os pés preferem estar descalços: "moço, poço trocar o sapato por um buquê de flores pra minha linda morena?" Existem trapézios de vôos em toda praça; e o circo do sol se apresenta de graça! Que maravilha de orquestração de passarinhos e risadas, e vozes, e poesias faladas, além das cantadas: alaúdes, tambores de pele de carneiro e flautas de bambus e madeiras esculpidas com detalhamento, todos acompanham o casamento. Fúnebre irônico e colorido, o palhaço faz o enterro final, o da própria morte, porque agora todos somos senhores de vida etéria... e sorrisos de olhos cansados, sonosos, soneiros, bocejeiros, uaaah...! Um espreguiçamento sem vez! Ufh! Mas o sustinho vem travêis: aquela porta não tinha visto mais, será que é de fazenda, de hospital ou de casa de oferenda? É tudo um grande transe ou levei pancada na cabeça? Reconheço e me reconheço. É local conhecido, de noites e de dias. É só manhã e da porta, saída do quarto, começa o corredor, que dá no banheiro, que dá na privada, aí dou aquela cagada e vou enfrentar a greve do metrô.
domingo, julho 23, 2006
Assim, tento assim, deixar adormecido... impossível. Mesmo porque sei que traz no peito uma saudadezinha que vem de longe, de janeiro, de rios, de praia e funk. Não sei se te completo. Mas sei o que me esforço e me peço pra ser mais diferente. Acontecer a maneira que me pede, num esforço físico capaz de mover montanhas mas que não é suficiente pra segurar o que me faz insuficientemente não seu. Mais, preciso de mais e não tenho mais. Sei que traz no peito uma saudadezinha que vem de longe, principalmente nesses momentos. Aí me rasgo inteiro e não entendo e do não entender fico quieto. Abandono as vozes de cumplicidade. Me arrependo da intimidade. Sumo presente por querer sumir de vergonha de vez. Mesmo porque sei que sempres vezes o janeiro bate volta nesse rio corrente, forte, cheio de carne, corpo, tempo, tempo, tempo, duradouro tempo, aproveitado tempo, tempo de liberdade ao som de muito funk e caraokê. E só a rede... nem só a rede. Queria te fazer tremer. Não abro mão de ti, mas me pego no apuros sempre, sempre nesse tempo curto de mal me perceber, te perceber, nos envolver. Não abro mão de ti, mas sempre me pego no apuros de não saber mais o pé das coisas e desesperar-se ao ver que frustra. Mesmo porque sei que traz no peito uma saudadezinha danada... queria te fazer tremer. Também queria ser mais violento. Me pego sempre no apuros de não saber fechar o punho quando é hora, de fechar o cú na hora certa, acirrar o ponta-pé e de fazer voltar a porra que sempre faz doer. Violento pra dar o murro na minha própria cara e ficar de olho roxo, cego, sem dente, de nariz quebrado. Me esmurrar por dentro, viver na cerne, acostumar na dor do sentimento... acostumar na dor pra dar prazer.
sábado, julho 22, 2006
Viver de pão e circo
Ai que dor nas costas dessa vida de levar o circo fora da carroça, erguido no braço, equilibrado na cabeça. E aí só sobram as pernas pra correr no chão a pressa de chegar n'otra praça e voar pro próxim número, se desdobrar em três, fazer outra vez e outra vez e outra vez. Colocar o pé nas avessas, dobrar ao dobro as dobras. E lá vamos nós outra vez, levar o circo fora da carroça, erguido no braço, equilibrado na cabeça. Ai que dor nas costas. Aí só sobram as pernas pra contar um, dois, três e fazer tudo outra vez. Fazer a troça, abrir a trouxa e apresentar o drama. O malabarismo, o trapézio, o vôo, o equilíbrio, o sorriso do palhaço, o avesso, o avesso contorcido, o avesso e o monociclo, fica na dor nas costas dessa vida de levar o circo fora da carroça, erguido no braço, equilibrado na cabeça. Fica nessa mania de montar e desmontar a lona, de mudar de rumo toda vez que algum parece estar perdido. Fica pra outra praça porque nessa o publico ficou na validade vencido. E o circo teatro chegou com a Paixão de Cristo! E fico nesse sacrifício de ver assim, viver de dor nas costas, sem carroça, sem braço, sem perna, mas também sem dia perdido. Ah, ganhei meu dia desfazendo a troça, abrindo a trouxa pro rufar de tambores: o galã entrou pro drama! E a platéia chora, e o circo volta pro meu sonho adormecido. Levanto da cama fazendo meia-hora, vou pra rotina seis-horas-meia-noite com dor nas costas, dessa vida de levar tudo fora da carroça, erguida nos braços e arrastada na consciência. O que eu queria mesmo era viver de pão e circo, no melhor dos seus sentidos.
sexta-feira, julho 07, 2006
O Nome Que Quiser
Com, compre dom, mesmo, o que ais de ser as vidas de eu mesmo... mesmos... sempre sem. Caiu a mofeza das aquelas partes pares doentes das mesmas, som que ais de ser as cidras de eu mesmo... menos... sente e vem. Pus a menos, fundo de hora, me doa, trevo, bem. Berne de bezerro em pasto queimado. Só tem carcará e grito n'alto morro seco e cinza de fogo abafado, vermelho quente apaziguado pelo aboio dos ventos contrários, é acalanto.. tuuuu boi de um lado tuuu boi de outro. O fogo se queima e se mata. Rente rente passa perto frente sempre rente vente vente vente vente ventre cobra ventre cubra rente perto frente reto certo deserto morro... boi carcará e morro, morro de morte e de terra, de gases e de Deuses semi-homens. Morro de pedras. Passava ali rapaz de boa perna, corredeiro, andador de passos largos e olhar adiante. Seguindo as vozes de desfiladeiro de boi fugido, morrido da fuga, caído em penhasco. Homem perdido, bicho varrido, disfarçado em roupante de gente: já é outra coisa que não mais de banho, de unhas cortadas e de bom falar e sorriso cheio de dentes. É de um olhar que nem se entende, o olho daquela gente fala outra lingua que não mais essa comum de sentimentos cantados nas modas, nas festas, nos pagodes. Nem música tem mais não, tem só solidão de nota só nota de agarrar pra sobrevivência. Lá no pico, bem lá no pico. N'alto da serra misturava em cinza. Podia ser aquela relva queimada sem longe desfigurança, reconheceria, sim senhor, que aquilo era semelhança: o pó e a pessoa eram quase a mesma coisa, se não fosse por ter aquele um coração batente e uma cabeça de nosso modo demente, mas em modo de ser aquela espécie de ser coerente ao que necessitava pra se reconhecer. Fuçava nos bolsões de casulo, tôco e qualquer buraco escondido, atraz de bicho morto ou ainda semi-vivo. Boi não via mesmo não, só em saudade, com imagem na cabeça. Era rapaz de boa perna, corredeiro, andador de passos largos e olhar adiante. Era rapaz? Era rapaz. Por um repuxo de tiro de senhor pra acertar bucho de urubu roubador de área afetada, pra espantar aproveitador de terreno sem dono porque passou a dona queimada, faz fugir o cinza homem de medos d'antes de morrer, agora de viver assim a ferro, fogo e bala. Corre adiante, pula morro, rebola tôco desvia de armadilhas da sua própria mãe natureza que em seus causos vive pregando peças na gente. Modesto de calma pensa e repensa a sua valia. Valia a pena, valia. Seguiu pro próximo morro, pra próxima ponte, pra próxima angústia em canto de apartamento vazio. Cortou pé de cana, pediu sua esmola e ligou pro seu pscanalista. Desses homens iguais de sopro, pr'esses homens iguais de sopro, canto meu aboio, prece, sacro. Hum... que as vezes dessa santicidade os pilares caem, as cinzas choram e o mundo acaba em dó maior. Tudo é festa, tudo é o que resta e o que resta também não é tudo o que falta, por isso vamos acabar em seresta e descobrir a viola de acompanhamento - são dez cordas e não dez mandamentos.
Fico assim dê a isso o nome que quiser...
Fico assim dê a isso o nome que quiser...
sábado, junho 24, 2006
Corpo Jaburiticabeira
Buriti Jabuticaba Jaburiticabeira
Leio Sou Construo
Saio no escuroinhozinho sem saber do Pinhém, do São Paulo, do Urubu qua quá, me bem. Sei sempres vezes que sente as sedes da saúdadezinhainha de quem vem de longe. Te amo mesmo assim, saudosamente afim.
O Buriti de Guimarães é alto a Jabuticaba sou eu Jaburiticabeira é que peço, espere ser, pra me entender, nesse processo.
Leio Sou Construo
Saio no escuroinhozinho sem saber do Pinhém, do São Paulo, do Urubu qua quá, me bem. Sei sempres vezes que sente as sedes da saúdadezinhainha de quem vem de longe. Te amo mesmo assim, saudosamente afim.
O Buriti de Guimarães é alto a Jabuticaba sou eu Jaburiticabeira é que peço, espere ser, pra me entender, nesse processo.
quinta-feira, junho 15, 2006
terça-feira, junho 13, 2006
Sala das Mistas
Quero assim essa sala em vistas das minhas manhãs e tardes da noite e tardes depois do meio-dia. Quero assim sempre mista com habitantes de demoras senhoras e senhores no tempo largo de copa roda do mundo e a hora sempre volta a hora inteira anterior interior. E um trapézio pra balançar no meio com o trampolim pra saltar no seio das nuvens. Porque a sala é aberta mas não chove só respinga o sufciente pra refrescar a gente de dia e acolher no orvalho na noite o sono dormido de senhores e senhoras discutindo filosofia pelos sonhos. Valsas nos entretempos em contratempo no compasso três por quatro por cinco vezes ao mesmo volta-e-meia belo bonito lindo amável surpreendente pôr-do-sol-das-seis-da-tarde. Arde aquele beijo demorado sem hora de ser nem ter nem ver nem saber o quanto é o que vale o que parte o que cabe o que desacabe por fim de terminar. Perceber o círculo reinventar a roda sempre reinventar o circo sempre reinventar reinventar reinventar.
SSSSsssss
Não quero isso assim... repetir a história. Existe algo que está além do astral e preciso agarrar com as duas mãos. Quero um novo rumo. Paro, penso, re.re.re.re.re.re.re.re.repetindo tudo, não quero isso assim... repetir a memória. Quero criar nova. O quê que eu quero? Quero não sei não. O queê? Qué tb um ser assim o que é que é então? Num não, sei ai. Repetir Estável... instável demais pra ser assim. Vim protra coisa. Aprendi, agora chega: vamos lado-a-lado? Longe de estar em cá do po... povo? De ouro esse... meu balaio é outro. Não acho, não pesco. Um circo de idéias, angústias, inquietações na estrada. Não, sem estrada, só se for pra nunca mais. Cada um por si e todo mundo na lona? Tá cada vez mais down na highsociety... ai a classe, artistas. Popzeando à tona... a toa... na boa... avoa, é avoa. Por assim também não sei. Ai ai... aiSsim... sssss... sim. Só sei que sim. Sim pro que vier.
quinta-feira, junho 01, 2006
Me Deu na Cabaça
Rasgado no seio da santa lenda de Calcutá
Partido
Salvem ainda a sobra de boa vontade
Boa saudade daqueles que pensam em ajudar a salvar
Esse altruísmo de processos conglomerados. Podres ares de humanidades macaquianas que não sabem muito mais do que abrir um côco na pedra. Muitas vezes na cabeça.
Me deu na cabaça: escrever assim sem se ter sentido de ser
Partido
Salvem ainda a sobra de boa vontade
Boa saudade daqueles que pensam em ajudar a salvar
Esse altruísmo de processos conglomerados. Podres ares de humanidades macaquianas que não sabem muito mais do que abrir um côco na pedra. Muitas vezes na cabeça.
Me deu na cabaça: escrever assim sem se ter sentido de ser
terça-feira, maio 09, 2006
Boa vida e boa sorte
As vezes tenho vontade de desistir. De tudo. De todos. Sumir pra nunca mais. Mas é mais forte do que matar-se, isso é pros fracos. Sumir é desintegra-se, não ser mais nada, não estar mais em lugar nenhum, nem na memórias das pessoas. Como uma partícula sem prótons, elétrons e nêutrons. Desistir de ser átomo e virar nada absoluto. Fora do alcance das coisas. Fugidio das mãos que querem sempre me trazer de volta. Não sirvo pra elas. Não sirvo pra nada. Não sirvo. Só me sirvo de escolhas erradas. Não construo a história, não sou capaz de enlouquecer o sistema, não sou capaz de mudar as pessoas. Meus pensamentos são merdinhas flutuantes que jogam os outros contra mim mesmo. Pior, outros, os quais mais amo. Essa minha maneira idiota de pensar, muito bem definida por uma pessoa desses outros, é o que mais me traz à tona querer ser o nada. Porque de nada adianta ser alguma coisa. Se ser coisa é ser só mais um elemento da soma. Antes ser nada e não magoar ninguém, não confundir ninguém, não magoar a mim mesmo e aqueles de quem amo mais. Porque amor é aquilo que nada não é, mas também parece ser pequeno frente a ignorância dos homens. Os valores estão trocados, as importâncias estão deslocadas. E talvez só me reste ser nada, porque o nada cabe no mundo e não encomoda. Não dá porrada. E as vezes eu acho que nem a conversa e nem a porrada resolvem a desarmonia engruvinhada. O ser está encardido, sem vida, sem respeito, sem uma só réstia brilhosa de humanidade. Assim só me resta querer ser nada. Sem arte até. Pequena por não estar na consciência coletiva. Tudo parece estar mudado pra pior. Me dá um desespero me vendo escrever essas coisas num teclado de computador. Porque parece que nada já sou, que escrevo pro nada, que o espaço é um vazio-nada imenso e que os leitores são virtualidades, impalpáveis, insolúveis, imutáveis e que, mesmo assim, são uma meia-dúzia de conhecidos. Conhecidos? Que nada, não se pode dizer conhecer alguém. Eu nem me conheço. Se fosse nada me conheceria nada e pouco se fodia o que pensasse, o que quisesse, o que interessasse, o que excitasse, o que amasse, o que odiasse e, acima de tudo, o que fosse. Porque não seria, não existiria nem mesmo na memória das pessoas. Nem mesmo. Nem mesmo. Nem mesmo em qualquer conceito. Nem mesmo. Porque me perseguem as escolhas erradas. Nem mesmo. A mágoa daqueles próximos. Nem mesmo. A vontade de ser nada. Nem mesmo. Correr fora, correr. Nem mesmo. Não quero me matar, não quero ser trauma nas memórias dos próximos, e registro funerário e estatístico dessa cidade criada pelo diabo. Seria mais uma escolha errada. Mas um dia descubro uma maneira de ser nada. De desintegrar meus átomos, esticá-los a velocidade do som e depois da luz e depois do nada. Tão rápido que... sumi.
Explodam as faculdades de comunicação. Comunicar é inútil, o ser não quer mais ouvir e eu cansei de esgoelar por aí. Boa vida e boa sorte.
Explodam as faculdades de comunicação. Comunicar é inútil, o ser não quer mais ouvir e eu cansei de esgoelar por aí. Boa vida e boa sorte.
quinta-feira, abril 27, 2006
Dividia o pão quando espreitei de relance o que acontecia a minha esquerda. Sentados a mesa estávamos - eu e meus irmãos. Papai via tudo meio de cima, um olhar que talvez não fosse assim tão inocente, ele sabia. Minha mãe já compadecida esperava o acontecido e o acontecido era de que não se podia fazer mais nada. Mas fazia: continuava.
quarta-feira, abril 26, 2006
Eu, meu caramujo, minha casa
Uma dramaturgia das pequeninisses. Fragmentos de pessoas que se traduzem em falas, que são ações, que são falas que são ações ques ão falasqu es ãoa çõesques ãofa lasquesão. Ações... substantivo apluralado por pensamentos. E o meu corpo que é tudo isso. Minha casa, do dia inteiro, que dorme a noite e se autoreforma pro cotidiano, em ambulância, itinerante, nômade, locomotiva primária, seja de pé ou de quatro, pro fronte ou pra retaguarda, pra calma contemplativa de paisagens ou pro desespero. Espero... espero... espero... sou casa e caramujo... espero... espero... espero. Sou o teto e o quintal... espero... espero... espero... Sou o assoalho e o porão, muitas vezes sou só porão... só porão... só porão... e espero... espero... espero. Sou o meu sobrado aberto a sete chaves, sem muro e sem portas, pra vida e pro tempo, pra sorte e pra sociedade, pro mundo e pra deus! Pena não estar para estadia. Sou minha casa e nela todos cabem, mas morar, não por minha vontade mas por natureza, niguém mais fica que não seja eu. Mas dessa idéia não desgosto. Aproveito... como eu todo Outro tem sua casa e dela seus aspectos. Morar junto é juntá-las além do abrigo de matéria teto, matéria chão. Esse corpo, que é E=mc ao quadrado, se junta no cinetismo, no moviemento das coisas, e dois sobrados viram um casarão, na iminente presença do sexo. E dali a construção...
Um corpo é uma casa. O que tem na sua? Se contar conto o que tem na minha... aliás, talvez seja isso que esteja fazendo desde que comecei essas minhas... não sei.
Um corpo é uma casa. O que tem na sua? Se contar conto o que tem na minha... aliás, talvez seja isso que esteja fazendo desde que comecei essas minhas... não sei.
sábado, abril 08, 2006
o Corpo que teme
De tudo, te peço pra não ser rasa. Não fuja desta dor que o fundo reserva. O submundo te aguarda às pressas nas presas e nas garras. Amarra teu âmago e levanta teu véu. Mostre a cara pra quem deseja ver nela a face que não interrompe o processo do medo.
Que medo tenho eu senão o medo do próprio medo. Ele me trava, me parte ao meio e joga a vontade de cada metade pra lados opostos com polos iguais. Ficam as duas em positivo, se repelem e não se juntam nunca mais. Esse trauma do trauma é o fundo que tenho medo. O submundo me aguarda com as vestes de sombra e da escuridão já basta a falta de claridade. E da razão já basta querer só realidade. Meus sonhos são as brisas que levantam o tule do véu e me ventilam a cara interrompida, paralisada, pelo penoso processo do medo.
E a vida de Davi segue ávida... não vê? Salomão pode ser Salomé e aquilo que aprendemos já foi derrubado por uma teoria qualquer. Édipo cego pelos olhos da humanidade cega já nos milênios gregos de atrás. E nas entrelinhas da história o medo é segundo lugar, enquanto o heroísmo segue na ponta de virtude primária. A estória bem contada vale mais do que a foto estampada. Isso porque as palavras cobrem aquilo que mancha, que fede e que desagrada. Levante esse rosto e vire essa folha de paisagens. Esteja a frente daquilo que é visceral.
Mas o medo é víscera. É carne trêmula, é adrenalina. É corpo em hormônio. É suvaco fedido do nervoso, do iminente perigo. O medo é gambá e é humano! É se cagar, se mijar, sangrar e chorar esse sangue por dentro. É pregar na cruz o corpo pela maldade e pela redênção. Sinto medo porque existo em ser-humano. Sinto medo porque os sonhos são incertos e as virtudes desnecessárias. Não dissipo energia por esconder a face do medo. Reservo um pouco dela pra poder sorrir depois. Proponho um breve pausa.
Que silêncio.
É do silêncio que tenho medo, nele existe...
Exite o que?
O não dito... só pensado. Me deixe assim agora, sem mais saber
Quer o silêncio?
Quero o gosto desse temer.
Que medo tenho eu senão o medo do próprio medo. Ele me trava, me parte ao meio e joga a vontade de cada metade pra lados opostos com polos iguais. Ficam as duas em positivo, se repelem e não se juntam nunca mais. Esse trauma do trauma é o fundo que tenho medo. O submundo me aguarda com as vestes de sombra e da escuridão já basta a falta de claridade. E da razão já basta querer só realidade. Meus sonhos são as brisas que levantam o tule do véu e me ventilam a cara interrompida, paralisada, pelo penoso processo do medo.
E a vida de Davi segue ávida... não vê? Salomão pode ser Salomé e aquilo que aprendemos já foi derrubado por uma teoria qualquer. Édipo cego pelos olhos da humanidade cega já nos milênios gregos de atrás. E nas entrelinhas da história o medo é segundo lugar, enquanto o heroísmo segue na ponta de virtude primária. A estória bem contada vale mais do que a foto estampada. Isso porque as palavras cobrem aquilo que mancha, que fede e que desagrada. Levante esse rosto e vire essa folha de paisagens. Esteja a frente daquilo que é visceral.
Mas o medo é víscera. É carne trêmula, é adrenalina. É corpo em hormônio. É suvaco fedido do nervoso, do iminente perigo. O medo é gambá e é humano! É se cagar, se mijar, sangrar e chorar esse sangue por dentro. É pregar na cruz o corpo pela maldade e pela redênção. Sinto medo porque existo em ser-humano. Sinto medo porque os sonhos são incertos e as virtudes desnecessárias. Não dissipo energia por esconder a face do medo. Reservo um pouco dela pra poder sorrir depois. Proponho um breve pausa.
Que silêncio.
É do silêncio que tenho medo, nele existe...
Exite o que?
O não dito... só pensado. Me deixe assim agora, sem mais saber
Quer o silêncio?
Quero o gosto desse temer.
quinta-feira, abril 06, 2006
Quatro Paredes
As ruínas que guardam pessoas também desguardam sentimentos. Arrastam pra fora os ares e deixam por dentro o pó que salta dos cantos todo aos montes. E os monstros imaginados do lugar desabitado nada mais é do que os próprios monstros habitados por dentro de nós mesmos. Nos deixam com medo das paredes, das escadas, dos elevadores. E essa sensação de abandono que preenche o vazio com vazio, pó e nada de colorido. Esse gosto por desespero. Nada. Esse niilismo perverso necessário ao desenhar das primeiras linhas no espaço. Esse niilismo perverso desnecessário ao desdenhar o que acontece de fato.
As caminhadas vinham de cima. Dormiamos em silêncio de medo e de frio. Ninguém sabia o que era o que vinha. E todos fingiam dormir, com os olhos cerrados esperando o inesperado. A presença era nítida, algo existia ali dentro. Preenchia aquele espaço com uma energia estranha. Podia ver aquilo examinando tudo, se aproximando. Podia ver de olhos fechados a clareza daquela coisa que de coisa não passava, assim mesmo, ontológica em si e, por isso, tão assustadora. E do mesmo jeito que veio foi embora. E o dia amanheceu. E os trabalhadores operariavam. E os cachorros vadiavam. E o sol era exatamente o mesmo. As coisas permaneciam aos seus lugares. E os medos sumiam com a luz do dia. E o dia começava ao seu lugar. E aquela sensação permanecia dentro da gente. A caminhada, o frio, as coisas sendo examinadas por um corpo estranho. Os olhos que não abriram não podem nada confirmar. O que não é visto não é acreditado. Podia ser Nietzsche, Godot, o cachorro, ou o caseiro. Só não era Deus. Deus já me disse adeus pra mais de cem vezes. Talvez fosse a centésima primeira. Não sei, esse Deus se for ele o que habita dentro da gente, de dar jeito de estar na ruína do peito. Então pode ser esse deuzinho que me falar xau mais uma vez veio, me deixando as vendas das vistas pra não vista ser a experiência do medo entre as quatro paredes.
As caminhadas vinham de cima. Dormiamos em silêncio de medo e de frio. Ninguém sabia o que era o que vinha. E todos fingiam dormir, com os olhos cerrados esperando o inesperado. A presença era nítida, algo existia ali dentro. Preenchia aquele espaço com uma energia estranha. Podia ver aquilo examinando tudo, se aproximando. Podia ver de olhos fechados a clareza daquela coisa que de coisa não passava, assim mesmo, ontológica em si e, por isso, tão assustadora. E do mesmo jeito que veio foi embora. E o dia amanheceu. E os trabalhadores operariavam. E os cachorros vadiavam. E o sol era exatamente o mesmo. As coisas permaneciam aos seus lugares. E os medos sumiam com a luz do dia. E o dia começava ao seu lugar. E aquela sensação permanecia dentro da gente. A caminhada, o frio, as coisas sendo examinadas por um corpo estranho. Os olhos que não abriram não podem nada confirmar. O que não é visto não é acreditado. Podia ser Nietzsche, Godot, o cachorro, ou o caseiro. Só não era Deus. Deus já me disse adeus pra mais de cem vezes. Talvez fosse a centésima primeira. Não sei, esse Deus se for ele o que habita dentro da gente, de dar jeito de estar na ruína do peito. Então pode ser esse deuzinho que me falar xau mais uma vez veio, me deixando as vendas das vistas pra não vista ser a experiência do medo entre as quatro paredes.
quinta-feira, março 23, 2006
terça-feira, março 21, 2006
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