Ah tempo...achou que ia passar batido? Um, dois, três textos passam a sua frente, mas quatro já seria demais... três textos sem falar no tempo. Mas tempo é tempo...tempo é tempo...o tempo está no tempo, impossível não falar... está aí, pra te contaminar.
- Tempo, quero contar-te uma história. Vamos passear naquelas ilhas decotadas? Esquecer do tempo e viver no largo, no longo e aberto. Nada de querer ser estreito, curto e fechado. Eu quero um tempo hábil pra viver grandes paixões, serenar pelos vulcões, alastrar pelos sertões esse teu sorriso largo!
Jo
Ana e meia, meio inteira. Quero sim.
Tá vendo, Tempo? Quero sim... e não me venha com suas trapassas de senhor Tempo mal humorado me tirar deste compasso três por quatro. Quero a valsa antes do poperô. Quero tantra antes de tanta pressa. Tempo tempo... tempera minha vida como tem temperado desde sempre, mas me deixe sentir esse gostinho de felicidade e não saia atropelando meus sentimentos. Fica comigo nessas ilhas decotadas viajando cada estação, decifrando cada estrela. Não me apresse, não me pisoteie a cabeça.
Daquele um
Um dia daqueles
Desses dias sem aqueles
Em que eles são só mais um de mim.
Um dia daqueles
Dessas tardes sem solzinho
Uma semana sem domingo
Sem cem das estrelas românticas que um dia...
Daqueles
De contar segredos que por tempos não me lembro
Viver bons ares, respirar inquietudes
É como um ano sem Novembro!
Como pode Dezembro nunca chegar? E o ano não acabar...
Num dia daqueles
Reveillon na praia, no sitio, no quintal de casa
Fogos de artifício que se ascendem e se apagam...
Dias de minha história que, se vêm, logo vão embora.
Um demorado beijo àqueles que tem feito de minha vida algo que transita além do tempo do relógio. Que me fazem perder a noção dos segundos e me largam somente ao tempo biológico. Tempo de papo de bar, de aconchego num abraço, de um beijo desejado. Um grande cheiro aos construtores de minha memória.
Das mudanças do corpo cabem as circunstâncias da vida. Cresço e, ao que amadureço, me escancaro. Aqui há minha porta aberta, onde parte o prolongamento de meus braços e pernas além do meu ego de ator e força circense. Partem minhas palavras em corpo, em carta, em viva poesia, mesmo se em prosa vier a narrativa. Sei que espiam e não deixam pistas, mas, se puderem, comentem... e deixem um pouco da sua carne poética em minha cerne criativa. Experimentem...
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terça-feira, setembro 20, 2005
terça-feira, setembro 13, 2005
O Corpo Descabeçado
Arranque minha cabeça e perco quatro dos meus sentidos
Sobra um
Se quiser se comunicar comigo
Tateie-me
Sobra um
Se quiser se comunicar comigo
Tateie-me
quinta-feira, julho 14, 2005
O Corpo Chave
Ah! Quanto tempo... e nesse tempo quanta coisa aconteceu. Deixei de escrever por falta de tempo. E o tempo continua sendo aquilo que me tempera nestes tempos sem tempo, até mesmo pro tempo. Outro dia minha irmã (grávida de Sofia) disse de mim ser o coelho da Alice. Mas me sinto mais como Alice, prestes a acordar e perceber que este tempo é outro, que esse coelho é lobo e que O Tempo, tempo mesmo, não tenho noção do que é. Ah, tanta coisa acontecendo... tantos "tantos" que chega a ser tanta a vida. Antes fosse ela tantra, com um tempo largo, mole e lerdo. Mas são contados os minutos, contados os ventos, contadas as voltas, contados os números deste tempo atravessando meus ossos...e pensamentos. Até canto tem tempo. As notas só são música no tempo. Organiza e desorganiza, mas nunca é orgânico. Está fora de mim, passa por mim e vai. Como um cachorro magro. Como um vulto ladrão, que zum! Leva coisas e deixa a velhice... deixa a espera por um tempo... e zum! Pra frente, tic-tac, nem volta e nem olha pra trás, nunca se satisfaz com aquilo que foi feito... e zum! Traz a morte e sai rebento...sem mais nem menos. Morre o sonho, morre a gente, morre o sonho da gente amiga... o sonho da multidão aflita por querer ser amiga?! O projeto do tempo é o de ir embora. O meu é de ficar pentelhando e trabalhar trabalhar trabalhar... e sonhar sonhar sonhar. Querer a utopia pra alcançar o sonho, querer o mundo pra conseguir os oceanos, querer aquele salto pra conseguir um passo a frente... me prometo o Universo pra conseguir abraçar a Lua! É ela que eu quero! A Lua, a rua, a sua, toda nua... mesmo que um dia o tempo me estapeie a cara e diga "fica na sua que um dia eu chego e te mostro a verdade nua e crua". Sorrio, agradeço e morro... como estou morrendo todos os dias.
O corpo chave pra fechadura tempo, parte do princípio do corpo aberto pra porta vida.
Sem mais...
O corpo chave pra fechadura tempo, parte do princípio do corpo aberto pra porta vida.
Sem mais...
terça-feira, março 01, 2005
O Corpo Gira
Nietzsche e Gira: um giravento pelas vidas
retrocessas (para pensar nos momentos de escolha e
angústia)
341.
O maior dos pesos.- E se um dia, ou uma noite,
um demônio lhe aparecesse
furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse:
" Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você
terá de
viver mais uma vez e incontáveis vezes; e nada haverá
de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada
suspiro e pensamento, e tudo o que
é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de
lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem
- e assim também
essa aranha e esse luar entre as árvores, e também
esse
instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir
será sempre virada novamente - e você com ela,
partícula de poeira!". - Você não se prostraria e
rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim
falou?
Ou você já experimentou um instante imenso, no qual
lhe
responderia: "Você é um deus e jamais ouvi coisa tão
divina!". Se esse pensamento tomasse conta de você,
tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria
talvez; a questão em tudo e em cada coisa, "Você quer
isso mais uma vez e por incontáveis vezes?", pesaria
sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto
você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida,
para não desejar nada além dessa última, eterna
confirmação e chancela?
( NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo:
Companhia das Letras,
2001.)
Se Nietzsche abriu alas para os nossos estudos
filosóficos, ele também fecha nossos preceitos e
esperanças... mas apenas por hora... pra Nietzsche, um
ciclo é infinito, um circulo volta em si num movimento
eterno, nascimento e morte, com uma vida no meio feita
de escolhas...um eterno retorno, eterno...gira o
círculo, um círculo gira só e só gira o círculo, nada
mais...
retrocessas (para pensar nos momentos de escolha e
angústia)
341.
O maior dos pesos.- E se um dia, ou uma noite,
um demônio lhe aparecesse
furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse:
" Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você
terá de
viver mais uma vez e incontáveis vezes; e nada haverá
de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada
suspiro e pensamento, e tudo o que
é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de
lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem
- e assim também
essa aranha e esse luar entre as árvores, e também
esse
instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir
será sempre virada novamente - e você com ela,
partícula de poeira!". - Você não se prostraria e
rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim
falou?
Ou você já experimentou um instante imenso, no qual
lhe
responderia: "Você é um deus e jamais ouvi coisa tão
divina!". Se esse pensamento tomasse conta de você,
tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria
talvez; a questão em tudo e em cada coisa, "Você quer
isso mais uma vez e por incontáveis vezes?", pesaria
sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto
você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida,
para não desejar nada além dessa última, eterna
confirmação e chancela?
( NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo:
Companhia das Letras,
2001.)
Se Nietzsche abriu alas para os nossos estudos
filosóficos, ele também fecha nossos preceitos e
esperanças... mas apenas por hora... pra Nietzsche, um
ciclo é infinito, um circulo volta em si num movimento
eterno, nascimento e morte, com uma vida no meio feita
de escolhas...um eterno retorno, eterno...gira o
círculo, um círculo gira só e só gira o círculo, nada
mais...
terça-feira, fevereiro 15, 2005
O Corpo Falso do Homem Sem Limites
Por essas e outras que digo que gato miou, cachorro latiu e o homem faliu a rica esperança de Deus em seu projeto de mundo perfeito.
Sobre isso digo pouco, porque o que falo é o pouco que foge entalado do saturado ego frouxo de gente nova no pedaço.
Pouco se fala, nada pouco se pensa, muito se transforma e comprime o que cria o artista. E deprime o que cria a criatura pois é sublime aquilo que desfragmenta. Aquilo que aparenta é falsa menta e o sabor é falsa fruta. O mundo perfeito é falso mundo, o corpo falso do homem sem limites. O corpo platônico, o corpo de Jesus de Nazaré, puro e hipócrita por quem o descreve. A gente tenta ser gente e esquece que bixo também somos. Esquece de latir mas lembra em avançar sobre a ordem sem lugar num espaço a sumir.
Os colibris cantam enquanto o canto fica rouco da euforia enérgica dos homens.
Sobre isso digo pouco, porque o que falo é o pouco que foge entalado do saturado ego frouxo de gente nova no pedaço.
Pouco se fala, nada pouco se pensa, muito se transforma e comprime o que cria o artista. E deprime o que cria a criatura pois é sublime aquilo que desfragmenta. Aquilo que aparenta é falsa menta e o sabor é falsa fruta. O mundo perfeito é falso mundo, o corpo falso do homem sem limites. O corpo platônico, o corpo de Jesus de Nazaré, puro e hipócrita por quem o descreve. A gente tenta ser gente e esquece que bixo também somos. Esquece de latir mas lembra em avançar sobre a ordem sem lugar num espaço a sumir.
Os colibris cantam enquanto o canto fica rouco da euforia enérgica dos homens.
quinta-feira, dezembro 16, 2004
o corpo de dolores
As dores do corpo são as doídas dolores da lembrança. O corpo de dolores é um corpo memória. Não, não pensem assim, não. Porque dor não pode ser gostosa? Sabe aquela dorzinha de gente enamorada. Ou dor de estréia... ou dor pra não trabalhar no dia seguinte. Ou dor de lembrança... dor gostosa. O corpo de dolores também é um corpo de atores e músicos. Corpo de artista, corpo de gente sabida. Corpo memória, corpo família, corpo aconchego... ai que aconchego que me dá quando lembro da gente amada. Mas também dá uma dor amargurada da lonjura da namorada... culpa da mãe... e do pai... e da vida que dá dessas dores pra tudo ficar mais interessante, na bem da verdade. Se tudo desse certo, se tudo fosse menos doído, menos vestido, menos falado, tudo também seria menos gostado, menos gozado, menos ouvido... respectivamente. O corpo de dolores é um corpo de desejo romântico, de fé catolica manipulada por uns batuques de Exu! Ninguém segura os doídos, porque ninguém segura a Dolores Memória da Vida Silva e Silva.
Ps: texto inspirado pela re-visita ao avesso do grupo teatral Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes com o espetáculo Casa de Dolores.
Abraços. Leandro.
Ps: texto inspirado pela re-visita ao avesso do grupo teatral Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes com o espetáculo Casa de Dolores.
Abraços. Leandro.
terça-feira, dezembro 14, 2004
o tempo voa mais que carcará com fome. o corpo do tempo
O tempo que atravessa os ossos dos homens. Gostaria de pensar a respeito. Algo que me atravessa os ossos é também algo que rompe com a fisicalidade do meu próprio corpo. Algo que tenha um corpo não corpo, ou melhor dizendo um corpo não físico. Mas o tempo é físico. Talvez o seu "não físico" seja melhor encaixado como um "diferente físico" um físico não material como os ossos, mas capaz de perpassá-los tão presentemente a ponto dos ossos sentí-los, com direito a arrepio daquele friozinho que dá quando sabemos que o tempo passou. E o corpo do tempo passa pelos nossos ossos rígidos com mais facilidade que o carcará em sua caçada. O tempo voa mais que carcará com fome. Este meu pensamento veio a toa num momento em lembrava de um texto, escrito pra Folha de São Paulo, de Fernando Bonassi. O texto não tem mais que oito linhas e diz o seguinte, em sua íntegra:
"21
O QUE EU PRECISO
Talvez vá buscar mais gelo pra essa bebida. Talvez encontre uma música sem letra no rádio. Talvez compre um Opala preto. Amanhã. Sim. Ou, quem sabe, uma Harley de garfo longo. Um super computador de meio quilo não seria mal. E aquele Zippo "série especial" pra deixar de herança... Talvez peça de volta a coleção do Batman. Talvez importe um canivete definitivo de Zurich; com facas, serras e coçadores de saco. Talvez precise de um despertador. Ou de um Lexotan. Ou apenas me largar numa superfície horizontal... deixar esses tempos atravessarem meus ossos."
Qual o corpo do tempo. Qual o corpo de Cronos? Qual a cronologia do corpo? Qual o corpo cronológico. Enquanto escrevia, o corpo do tempo atravessou os meus ossos e continuou a mover-se continuamente, como uma torneira aberta ao seu máximo por um TEMPO infinito. Há quantos anos os rios correm nascendo onde nascem e depois vão morrendo pelo mar? O infinito é o corpo do tempo. É um corpo de infinita juventude mas não de infinita mortalidade. O tempo também morre em algum mar, talvez um mar onde não haja mais ossos pra se atravessar. O tempo que percebemos só é tempo porque tem um corpo humano. Voa mais que carcará com fome porque estamos esfomiados por fazer do tempo algo a se vencer. Mas olhe pra dentro e desfigure seu corpo do avesso para o desavesso. Você é memória, lembranças, vivências, emoções, imagens, passado, presente, futuro, você é corpo-tempo, que atravessa os seus ossos. Corpo malemolente à permanência no tempo. Quero permanecer no tempo. Quero ser memória. Quero que depois de mim venha o dilúvio. Acabam os tempos, porque acabam as lembranças presas na memória daquilo que é e não é vivo. Acabam as marcas que dizem que Cronos passou veloz por aqui. Ahhh... o que eu preciso? Acho que realmente é "deixar esses tempos atravessarem os meus ossos".
Quanto a isso escrevi um texto:
"Branco do branco"
Me disseram que um dia ainda ia ver o tempo passar tão rápido que não ia ver. Me disseram que um dia ainda ia prever o futuro de segundos pra acontecer. Um novo mundo logo de tão logo louco submundo mundo de tão mundocão de dia tarde demais tarde demais tarde demais. Tempo tempo tempo do tempo tempero amargo do tempo que passa além do tempo de tempero amargo. Um repente de repentino fim. Fim. Ah meu fim, ó meu fim. Frente trás lado vem dançando a valsa do amor. Um do tre. Hum. Menos que hum... milésimos de hum passando por aí. Me disseram pra um dia ainda eu cuidar de descuidar de cuidar da vida o tempo passa tarde demais tarde demais tarde demais. Um olhar não consegue mais provar qualé nuance, qualé a sentença. As cores passam rápido e tudo vira branco. Qual é a nuance? Qual é a sentença? Tudo fica branco, tudo fica sem. Tudo está mais morto. Me disseram que um dia ainda ia prever o futuro de segundos pra acontecer um dia aconteceu de tudo ficar brando, de tudo ficar branco, de tudo tudo sem nada só tudo ficar só branco do branco.
Leandro Hoehne
Abraços. Leandro.
sexta-feira, outubro 01, 2004
o corpo de ossanha
Gostaria de começar somente com uma poesia. Não acho que tenha muito haver, num primeiro olhar. Mas não sei porque ela me diz algo que quase me obriga a colocá-la como
abre-alas. Prefiro seguir minha intuição e tentar entender de outra forma depois. Eis que abre o canto, o clamor, o corpo de Canto de Ossanha:
Canto de Ossanha
Composição: Baden Powell/Vinícius de Morais
O homem que diz dou, não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou, não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou, não é
Quem é mesmo é não sou
Tô, não tá, ninguém está quando quer
Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai
Não vou
Vai, vai, vai,vai
Dizer que eu não sou ninguém de ir em conversa de esquecer a tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se vou pra ver uma estrela aparecer na manhã de um novo amor
Amigo, senhor, saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte ao seu orixá
Amor só é bom se doer
Vai, vai, vai amarvai, vai, vai, vai sofrer
vai, vai, vai, vai chorar
vai, vai, vai
Dizer que eu não sou ningém de ir em conversa de esquecer a tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se vou pra ver uma estrela aparecer na manhã de um novo amor
Um bom negrinho é o que tem o suingue no sangue de negro que requebrou pra sobreviver à escravidão. Corpo de negro, corpo de branco, corpo mestiço, corpo de índio, corpo imigrante, corpos brasis.
Durmam com Ossanha!
Abraços. Leandro.
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